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Festa de Santa Clara


Celebrar a festa de S. Clara de Assis no ano do 800.º aniversário dos protomártires franciscanos reveste-se de especial significado. Mortos no Marrocos aos 16 de janeiro de 1220, foram cinco os primeiros franciscanos coroados com a glória do martírio: Berardo, Pedro, Otão, Acúrsio e Adjuto, todos eles discípulos de S. Francisco, que fundara havia pouco sua Ordem. Enviados a pregar o Evangelho à Espanha, então sob domínio muçulmano, os cincos se dirigiram primeiro a Sevilha, em cuja mesquita proclamaram em plena festividade islâmica o nome de Cristo. Presos e condenados, foram no entanto liberados em seguida, embarcando sem demora para o Marrocos, onde tornaram a ser presos por causa de sua pregação. Ali, foram cruelmente torturados e, por ordem do miramolim da cidade, finalmente decapitados. A notícia do martírio dos irmãos de S. Francisco surpreendeu tanto a cristandade, que ninguém menos que Fernando de Bulhões decidiu vestir o hábito franciscano, com o qual se tornaria o nosso conhecidíssimo S. Antônio de Lisboa. Também a bem-aventurada Clara, ao saber do ocorrido, tomou-se de tal impulso de caridade, que se decidiu prontamente a partir em missão para pregar a verdade evangélica aos infiéis e, se preciso fosse, entregar cruentamente sua vida por Cristo. Tamanho amor urgia a freira, que o próprio S. Francisco se viu obrigado a retê-la, proibindo-lhe a saída do convento. Essa santa loucura, que pode parecer-nos hoje um impulso imprudente, quando não “suicida”, inspira-se em verdade naquela sabedoria que só é compreensível aos que procuram ser santos.

Santa Clara, que abraçara a pobreza evangélica por amor ao Cristo que por ela se fizera pobre, como poderia não querer sacrificar-se pelo mesmo Cristo, que por ela se fizera proscrito, morto entre dois ladrões? Pois é essa a verdadeira essência do franciscanismo: nem mera emulação exterior de um “estilo de vida” despojado, nem simples “opção pelos pobres”, mas a vivência profunda da caridade divina, que nos impele a retribuir a Cristo com a mesma “moeda” com que Ele nos comprou: dando a vida, seja pela abdicação aos bens do mundo, seja pela renúncia a si mesmo, no serviço aos outros ou em holocausto pelo martírio.


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